terça-feira, 28 de dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

DESENGANOS DA VIDA, METAFORICAMENTE






UM SONETO DE GREGÓRIO DE MATTOS GUERRA:







É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

O auto-retrato, de Mário Quintana



No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ainda sobre Indignação


Gostei muito tb do final. Dá, de início, a impressão de que ele se cansou, mas não é bem isto mesmo. O fato do final ser rápido , onde as coisas mais são sugeridas que propriamente ditas, deixa-nos o trabalho de completar a narrativa, de interagir com a história imaginando todo o sofrimento que se abateu sobre a família.Ele só nos dá rápidos instantes mais fortes do sofrimento. Roth não duvida de seus leitores. Deixa-lhes sugestões como raios de indignação.

Muitas coisas nos são sugeridas sem serem ditas. Roth é um denunciador de problemas de relacionamento sob aparente águas tranüiilas.
Pergunto-me, por exemplo: O que terá havido de tão grave na vida de Olivia que a deixou naquele estado? Não simplesmente a separação dos pais.Por que terá havido a separação? Olivia não gosta de falar do pai. Coisa de que Marcus não se poupa em relembrar: um pai pelo qual ele tem tem carinho, um pai que adoece de amor e receios pelo destino pelo filho. Não sei bem porque mais minha intuição me diz que Olivia não suporta o pai, ou terá sido sugerido por Roth? A literatura nos proporciona isto : um mundo de sugestões, de dubiedades.
Enfim , muitos enfins ainda teremos, a indignação está ou é sugerida em vários momentos , camadas, desta fantástica história humana(ou desumana!).

Sobre Indignação


"Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las."Voltaire
Eloisa Helena para grupo-de-leitura.
13:15 (20 horas atrás)

O pensamento de Voltaire dá título ao e-mail.
Boa tarde, Clube!

Terminei o livro.Como sou e do jeito que sou, chorei... Estou solidária coma mãe do nosso grande herói. Já prevejo muitas discussões, como de hábito, sobre nossa leitura do mês . O livro tem mesmo o seu miolo na conversa do diretor com o jovem Marcus. E fica sempre na nossa consciência a pergunta : E se ..? Se não fosse isto e se fosse aquilo? Não temos o poder da decisão sobre o nosso futuro de forma plena. Muitas das decisões, a vida estabelece. Mas flexibilidade, compreensão, diálogo são importantes e devem ser estabelecidos em Educação, de todas as formas.
A condenação à guerra está clara no livro. Bestas! Estou indignada!
Muitas vezes, como Marcus, já me vi dizendo algo que depois me levava a pensar: Por que não fiquei calada? Mas uma outra força nos impulsiona a falar, a teimar: a indignação diante da injustiça, do descaramento, da prepotência.
Como Marcus, vamos xingando através de atos. F----se se faz! Poderia ter uma vida mais confortável, mais passeios, mais luxos... Mas o f----se , aconteceu muitas vezes!
Fica mais uma vez a pergunta: "Vence na vida quem diz sim?"

Quem apreciou o autor , pode ler Pastoral Americana, ganhou o prêmio Pulitzer, em 1997 (informe que conta na orelha do livro) Tenho este livro, já o li. Gostei muito!
--
Eloisa Helena
Escrito no dia, 14/11/2010. Recebeu pequenas alterações ao original com relação a algumas palavras abreviadas, pois não são de nosso hábito. ( Ah...Marcus, sou pior que você em certo sentido)e à pontuação. O texto acima aconteceu em referência ao romance Indignação, de Philip Roth.
Ainda acrescento, hoje, a pergunta para reflexão: O que é vencer na vida?
15/11/2010

domingo, 14 de novembro de 2010

Para ficar nos anais...e não esquecer jamais!

"Por que , pelo contrário, eu estava em conflito com todo mundo? Começou em casa com meu pai, e daí por diante havia me seguido obstinadamente até aqui.Primeiro Flusser, depois Elwyn, agora Cawdell. E quem era o culpado, eles ou eu?" Em INDIGNAÇÃO, Philip Roth ,p. 88 Um livro que nos indigna e que deve ser proibido para menores de 30 anosrsrsrs Como diz a frase " Não confie em ninguém com mais de trinta anos" Não deve ser lido por umas tantas pessoas inflexíveis, pelos Caudwells da vida...(Elô)

E isso é para vocês aprenderem a " ler " pelos seus próprios olhos....também!kkkk

Este mês as d iscussões serão ou muito quentes ou nem haverá discussões!

Um leitora bastante independente... e injustiçada!kkkk

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um presente de amiga portuguesa:


"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”"

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Menina do Céu - Habanera

Carmen- Habanera -Bizet

Versão original (em francês)

L’amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut apprivoiser
Et c’est bien en vain qu’on l’appelle,
S’il lui convient de refuser.
Rien n’y fait, menace ou prière,
L’un parle bien, l’autre se tait;
Et c’est l’autre que je préfere.
Il n’a rien dit: mais il me plait.

L’amour ! L’amour ! L’amour! L’amour!
L’amour est enfant de Bohême,
Il n’a jamais, jamais connu de loi,
Si tu ne m’aimes pas, je t’aime;
Si je t’aime, prends garde à toi!
Si tu ne m’aimes pas, si tu ne m’aimes pas, je t’aime !
Mais si je t’aime, si je t’aime, prends garde à toi !

Si tu ne m’aimes pas, si tu n’aimes pas, je t’aime !
Mais si je t’aime, si je t’aime, prends garde à toi!
L’ouseau que tu croyais surprendre
Battit de l’aile et s’envola;
L’amour est loin, tu peux l’attendre ;
Tu ne l’attends plus, il est là !
Tout autour de toi vite, vite,
Il vient, s’en va , puis il revient !
Tu crois le ternir, il t’évite ;
Tu crois l’éviter, il te tient !

L’amour ! L’amour ! L’amour! L’amour!
L’amour est enfant de Bohême,
Il n’a jamais, jamais connu de loi,
Si tu ne m’aimes pas, je t’aime;
Si je t’aime, prends garde à toi!
Si tu ne m’aimes pas, si tu ne m’aimes pas, je t’aime !
Mais si je t’aime, si je t’aime, prends garde à toi !

Si tu ne m’aimes pas, si tu ne m’aimes pas, je t’aime ;
Mais si je t’aime, si je t’aime, prend garde à toi !
Si tu ne m’aimes pas, si tu ne m’aimes pas, je t’aime ;
Mais si je t’aime, si je t’aime, prend garde à toi !


Versão em inglês (sincronizada, isto é, com as sílabas no tempo do compasso)

domingo, 10 de outubro de 2010

FOI UM MOMENTO, Fernando Pessoa






Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
'Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.



Fernando Pessoa

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

LER O MUNDO, Affonso Romano de Sant'Anna

Tudo é leitura. Tudo é decifração. Ou não.
Ou não, porque nem sempre deciframos os sinais à nossa frente. Ainda agora os jornais estão repetindo, a propósito das recentes eleições, “que é preciso entender o recado das urnas”. Ou seja: as urnas falam, emitem mensagens. Cartola - o sambista- dizia “as rosas não falam, as rosas apenas exalam o perfume que roubam de ti”. Perfumes falam. E as urnas exalaram um cheiro estranho. O presidente diz que seu partido precisa tomar banho de “cheiro de povo”. E enquanto repousava nesses feriados e tomava banho em nossas águas, ele tirou várias fotos com cheiro de povo.

Paixão de ler. Ler a paixão.
Como ler a paixão se a paixão é quem nos lê? Sim, a paixão é quando nossos inconscientes pergaminhos sofrem um desletrado terremoto. Na paixão somos lidos à nossa revelia .
O corpo é um texto. Há que saber interpretá-lo. Alguns corpos, no entanto, vêm em forma de hieroglifo, dificílimos. Ou, a incompetência é nossa, iletrados diante deles?

Quantas são as letras do alfabeto do corpo amado? Como soletrá-lo? Como sabê-lo na ponta da língua? Tem 24 letras? Quantas letras estranhas, estrangeiras nesse corpo? Como achar o ponto G na cartilha de um corpo? Quantas novas letras podem ser incorporadas nesta interminável e amorosa alfabetização? Movido pelo amor, pela paixão pode o corpo falar idiomas que antes desconhecia.

O médico até que se parece com o amante. Ele também lê o corpo. Vem daí a semiologia. Ciência da leitura dos sinais. Dos sintomas. Daí partiu Freud, para ler o interior, o invisível texto estampado no inconsciente. Então, os lacanianos todos se deliciaram jogando com as letras - a letra do corpo, o corpo da letra.

Diz-se que Marx pretendeu ler o inconsciente da história e descobrir os mecanismos que nela estavam escritos/inscritos. Portanto, um economista também lê a sociedade. Os empresários e executivos, por sua vez, se acostumaram a falar de "qualidade total". Mas seria mais apropriado falar de "leitura total". Só uma leitura não parcial, não esquizofrênica do real pode nos ajudar na produtividade dos significados. Por isto, é legítimo e instigante falar não apenas de uma "leitura da economia", mas de algo novo e provocador: a "economia da leitura".

Não é só quem lê um livro, que lê.
Um paisagista lê a vida de maneira florida e sombreada. Fazer um jardim é reler o mundo, reordenar o texto natural. A paisagem, digamos, pode ter "sotaque", assim como tem sabor e cheiro. Por isto se fala de um jardim italiano, de um jardim francês, de um jardim inglês. E quando os jardineiros barrocos instalavam assombrosas grutas e jorros d’água entre seus canteiros estavam saudando as elipses do mistério nos extremos que são a pedra e a água, o movimento e a eternidade.

O urbanista e o arquiteto igualmente escrevem, melhor dito, inscrevem, um texto na prancheta da realidade. Traçados de avenidas podem ser absolutistas, militaristas, e o risco das ruas pode ser democrático dando expressividade às comunidades.
Tudo é texto. Tudo é narração.

O astrônomo lê o céu, lê a epopeia das estrelas. Ora, direis, ouvir & ler estrelas. Que estórias sublimes, suculentas, na Via Láctea. O físico lê o caos. Que epopéias o geógrafo lê nas camadas acumuladas num simples terreno. Um desfile de carnaval, por exemplo, é um texto. Por isto se fala de “samba enredo”. Enredo além da história pátria referida. A disposição das alas, as fantasias, a bateria, a comissão de frente são formas narrativas.

Uma partida de futebol é uma forma narrativa. Saber ler uma partida - este o mérito do locutor esportivo, na verdade, um leitor esportivo. Ele, como o técnico, vê coisas no texto em jogo, que só depois de lidas por ele, por nós são percebidas. Ler, então, é um jogo. Uma disputa, uma conquista de significados entre o texto e o leitor.

Paulinho da Viola dizia: "As coisas estão no mundo eu é que preciso aprender”. Um arqueólogo lê nas ruínas a história antiga.
Não é só Scheherazade que conta estórias. Um espetáculo de dança é narração. Uma exposição de artes plásticas é narração. Tudo é narração. Até o quadro “Branco sobre o branco” de Malevich conta uma estória.

Aparentemente ler jornal é coisa simples. Não é. A forma como o jornal é feita, a diagramação, a escolha dos títulos, das fotos e ilustrações são já um discurso. E sobre isto se poderia aplicar o que Umberto Eco disse sobre o “Finnegans Wake” de James Joyce: “o primeiro discurso que uma obra faz o faz através da forma como é feita”.

Estamos com vários problemas de leitura hoje. Construimos sofisticadíssimos aparelhos que sabem ler. Eles nos lêem. Nos lêem, às vezes, melhor que nós mesmos. E mais: nós é que não os sabemos ler. Isto se dá não apenas com os objetos eletrônicos em casa ou com os aparelhos capazes de dizer há quantos milhões de anos viveu certa bactéria. Situação paradoxal: não sabemos ler os aparelhos que nos lêem. Analfabetismo tecnológico.

A gente vive falando mal do analfabeto. Mas o analfabeto também lê o mundo. Às vezes, sabiamente. Em nossa arrogância o desclassificamos . Mas Levi-Strauss ousou dizer que algumas sociedades iletradas eram ética e esteticamente muito sofisticadas. E penso que analfabeto é também aquele que a sociedade letrada refugou. De resto, hoje na sociedade eletrônica, quem não é de algum modo analfabeto?

Vi na fazenda de um amigo aparelhos eletrônicos, que ao tirarem leite da vaca, são capazes de ler tudo sobre a qualidade do leite, da vaca , e até (imagino) lerem o pensamento de quem está assistindo à cena. Aparelhos sofisticadíssimos lêem o mundo e nos dão recados. A camada de ozônio está berrando um S.O.S., mas os chefes de governo, acovardados, tapam (economicamente) o ouvido. A natureza está dizendo que a água, além de infecta, está acabando. Lemos a notícia e postergamos a tragédia para nossos netos.

É preciso ler, interpretar e fazer alguma coisa com a interpretação. Feiticeiros e profetas liam mensagens nas vísceras dos animais sacrificados e paredes dos palácios. Cartomantes lêem no baralho, copo d’água, búzios.Tudo é leitura. Tudo é decifração.
Ler é uma forma de escrever com mão alheia.

Minha vida daria um romance? Daria, se bem contado. Bem escrevê-lo são artes da narração. Mas só escreve bem, quem ao escrever sobre si mesmo, lê o mundo também.


O GLOBO,12/11/2000, com adaptações.

A Crônica "Ler o Mundo" de Afonso Romano de Sant'Anna (em 2010, completa-se 30 anos da publicação do poema "Que País é Este?") é a introdução do livro "Ler o Mundo"

LOBO

domingo, 3 de outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

HISTÓRIAS DE BEM-TE-VI, Cecília Meireles



História de bem-te-vi

Cecília Meireles


Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outras até acham que seja apenas antigüidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira. Pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.

Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e "querejuás todos azuis de cor finíssima...". Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é leitura...

Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar.

E é pena, pois com esse nome que tem — e que é a sua própria voz — devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria.

O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: "...te-vi! ...te-vi", com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que também os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.

Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão — como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? — animou-se a uma audácia maior Não quis saber das duas sílabas, e começou a gritar apenas daqui, dali, invisível e brincalhão: "...vi! ...vi! ...vi! ..." o que me pareceu divertido, nesta era do twist.

O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol — que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.

Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: "Bem-bem-bem...te-vi!" Pensei: "É uma nova escola poética que se eleva da mangueira!..." Depois, o passarinho mudou. E fez: "Bem-te-te-te... vi!" Tornei a refletir: "Deve estar estudando a sua cartilha... Estará soletrando..." E o passarinho: "Bem-bem-bem...te-te-te...vi-vi-vi!"

Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: "Que engraçado! Um bem-te-vi gago!"

(É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira...)


Texto extraído do livro “Escolha o seu sonho”, Editora Record – Rio de Janeiro, 2002, pág. 53.

Para mangueiras e bem-te-vis, com desejos de vida longa e feliz! Viva a Primavera!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O constante diálogo, Carlos Drummond de Andrade


Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

sábado, 4 de setembro de 2010

Minha Casta Dulcinéia, Fernando Sabino




Minha Casta Dulcinéia

Estou numa esquina de Copacabana, são duas horas da madrugada. Espero uma condução que me leve para casa. À porta de um “dancing”, homens conversam, mulheres entram e saem, o porteiro espia sonolento. Outras se esgueiram pela calçada, fazendo a chamada vida fácil.
De súbito a paisagem se perturba. Corre um frêmito no ar, há pânico no rosto das mulheres que fogem. Que aconteceu? De um momento para outro, não se vê mais uma saia pelas ruas - e mesmo os homens se recolheram discretamente à sombra dos edifícios.
_ Que aconteceu? pergunto a alguém que passa apressado.
É a radiopatrulha: vejo o carro negro surgir da esquina como um deus blindado e vir rodando devagar, enquanto os olhos terríveis da Polícia espreitam aqui e ali. Não se sabe como, sua aparição foi antecedida de um aviso que veio rolando pelas ruas trazido pelo vento, espalhando o medo e possibilitando a fuga.
Eis, porém, que surgem da esquina duas mulheres, desavisadas e tranqüilas. Uma é mulata e alta, outra é baixa e tão preta, que só o vestido se destaca dentro da noite - ambas pobres e feias. Vêem o inimigo, perdem a cabeça e saem em disparada, cada uma para o seu lado. O carro da polícia acelera, ao encalço da mulata: em dois minutos ela é alcançada...
A outra, trêmula de medo, se encolhe a meu lado como um animal, tentando ocultar-se. O carro faz a volta e vem se aproximando.
_ Pelo amor de Deus, moço, diga que está comigo.
Já não há tempo de fugir. A pretinha me olha assustada, pedindo licença para tomar-me o braço, e, assim, protegida, enfrenta o olhar dos policiais. Tomado de surpresa, fico imóvel, e somos como um feliz, ainda que insólito casal de namorados. Compenetro-me, forças secretas dentro de mim endireitam-me o corpo para enfrentar a situação. Ouço a voz de Quixote sussurrar-me que agora, ou vou preso com ela, ou ninguém vai, na verdade, neste instante de heroísmo, unido a um ser humano pelo braço, sinto-me capaz de enfrentar até o Juízo Final, quanto mais a Delegacia de Costumes.
Passado o perigo, a preta retira humildemente o braço do meu, faz um trejeito, agradecendo, e desaparece na escuridão. Eu é que agradeço, minha senhora - é o que pensa aqui o fidalgo. Tomo alegremente o meu lotação e vou para casa com a alma leve, pensando na existência daquelas coisas, como diria o poeta, pelas quais os homens morrem.
Fernando Sabino


Adoro Dom Quixote e Fernando Sabino! São muito humanos.

sábado, 28 de agosto de 2010

Poesia de Mia Couto


SER,PARECER
[Mia Couto]

Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.

domingo, 22 de agosto de 2010

Aberlardo e Heloisa, um casal imortal

Abelardo e Heloisa

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"Fujo para longe de ti,
evitando-te como a um inimigo,
mas incessantemente
te procuro em meu pensamento.
Trago tua imagem em minha memória
e assim me traio e contradigo,
eu te odeio, eu te amo."
Carta de Abelardo a Heloísa.

"É certo que quanto maior é a
causa da dor, maior se faz
a necessidade de para ela
encontrar consolo, e este
ninguém pode me dar, além de ti.
Tu és a causa de minha pena,
e só tu podes me proporcionar conforto.
Só tu tens o poder de me entristecer,
de me fazer feliz ou trazer consolo."
Carta de Heloísa a Abelardo

O tempo me guardou você - Ivan lins

domingo, 15 de agosto de 2010

PRELÚDIOS -INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR, de Hilda Hilst.



III

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heróicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento

Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

domingo, 25 de julho de 2010

PERGUNTA, Cecília Meireles.


Estes meus tristes pensamentos
Vieram de estrelas desfolhadas
Pela boca brusca dos ventos?

Nasceram das encruzilhadas,
Onde os espíritos defuntos
Põem no presente horas passadas?

Originaram-se de assuntos
Pelo raciocínio dispersos,
E depois na saudade juntos?

Subiram de mundos submersos
Em mares, túmulos ou almas,
Em música, em mármore, em versos?

Caíram das noites calmas,
Dos caminhos dos luares lisos,
Em que o sono abre mansas palmas?

Provêm de fatos indecisos,
Acontecidos entre brumas,
Na era de extintos paraísos?

Ou de algum cenário de espumas,
Onde as almas deslizam frias,
Sem aspirações mais nenhumas?

Ou de ardentes e inúteis dias,
Com figuras alucinadas
Por desejos e covardias?

Foram as estátuas paradas
Em roda da água do jardim…?
Foram as luzes apagadas?

Ou serão feitos só de mim,
Estes meus tristes pensamentos
Que boiam como peixes lentos

Num rio de tédio sem fim?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

MULHER AO ESPELHO,Cecília Meireles


Mulher ao Espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal fez, essa cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se é tudo tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

domingo, 11 de julho de 2010

Poesia de Shakespeare


Soneto 23 ~

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um poema de R.Tagore


~ Se me é negado o amor ~

Se me é negado o amor, por que, então, amanhece;
por que sussurra o vento do sul entre as folhas recém nascidas?
Se me é negado o amor, por que, então,
A noite entristece com nostálgico silêncio as estrelas?
E por que este desatinado coração continua,
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?

R.Tagore

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Uma grande preferência, inesquecível preferência...

Poesia de Luís Vaz de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía

terça-feira, 8 de junho de 2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Conto de Guimarães Rosa


Nós, os temulentos

(João Guimarães Rosa)

Entendem os filósofos que nosso conflito essencial e drama talvez único seja mesmo o estar-no-mundo. Chico, o herói, não perquiria tanto. Deixava de interpretar as séries de símbolos que são esta nossa outra vida de aquém-túmulo, tão pouco pretendendo ele próprio representar de símbolo; menos, ainda, se exibir sob farsa. De sobra afligia-o a corriqueira problemática quotidiana, a qual tentava, sempre que possível, converter em irrealidade. Isto, a pifar, virar e andar, de bar a bar.

— Exercera-se num, até às primeiras duvidações diplópicas: — "Quando ... — levantava doutor o indicador — ... quando eu achar que estes dois dedos aqui são quatro" ... Estava sozinho, detestava a sozinhidão. E arejava-o, com animação aquecente, o chamamento de aventuras. Saiu de lá já meio proparoxítono.

E, vindo, noé, pombinho assim, montado-na-ema, nem a calçada nem a rua olhosa lhe ofereciam latitude suficiente. Com o que, casual, por ele perpassou um padre conhecido, que retirou do breviário os óculos, para a ele dizer: — Bêbado, outra vez ... — em pito de pastor a ovelha. — É? Eu também ... — o Chico respondeu, com báquicos, o melhor soluço e sorriso.

E, como a vida é também alguma repetição, dali a pouco de novo o apostrofaram: — Bêbado, outra vez? E: — Não senhor ... — ó Chico retrucou — ... ainda é a mesma.

E, mais três passos, pernibambo, tapava o caminho a uma senhora, de paupérrimas feições, que em ira o mirou, com trinta espetos. — Feia! o Chico disse; fora-se-lhe a galanteria. — E você, seu bêbado!? — megerizou a cuja. E, aí, o Chico: — Ah, mas ... Eu? ... Eu, amanhã, estou bom...

E, continuando, com segura incerteza, deu consigo noutro local, onde se achavam os companheiros, com método iam combeber. Já o José, no ultimado, errava mão, despejando-se o preciosíssimo líquido orelha adentro. — Formidável! Educaste-a? — perguntou o João, de apurado falar. — Não. Eu bebo para me desapaixonar ... Mas o Chico possuía outros motivos: — E eu para esquecer ... — Esquecer o quê? — Esqueci.

E, ao cabo de até que fora-de-horas, saíram, Chico e João empunhando José, que tinha o carro. No que, no ato, deliberaram, e adiaram, e entraram, ora em outra porta, para a despedidosa dose. João e Chico já arrastando o José, que nem que a um morto proverbial. — Dois uísques, para nós ... — Chico e João pediram — e uma coca-cola aqui para o amigo, porque ele é quem vai dirigir.

E — quem sabe como e a que poder de meios — entraram no auto, pondo-o em movimento. Por poucos metros: porque havia um poste. Com mais o milagre de serem extraídos dos escombros, salvos e sãos, os bafos inclusive. — Qual dos senhores estava na direção? — foi-lhes perguntado. Mas: — Ninguém nenhum. Nós todos estávamos no banco de trás...

E, deixado o José, que para mais não se prezava, Chico e João precisavam vagamente de voltar a casas. O Chico, sinuoso, trambecando; de que valia, em teoria, entreafastar tanto as pernas? Já o João, pelo sim, pelo não, sua marcha ainda mais muito incoordenada. — Olhe lá: eu não vou contar a ninguém onde foi que estivemos até agora ... — o João predisse; epilogava. E ao João disse o Chico: — Mas, a mim, que sou amigo, você não podia contar?

E, de repente, Chico perguntou a João: — Se é capaz, dê-me uma razão para você se achar neste estado? ! Ao que o João obtemperou: — Se eu achasse a menorzinha razão, já tinha entrado em lar - para minha mulher ma contestar...

E, desgostados com isso, João deixou Chico e Chico deixou João. Com o que, este penúltimo, alegre embora física e metafisicamente só, sentia o universo: chovia-se-lhe. — Sou como Diógenes e as Danaides... — definiu-se, para novo prefácio. Mas, com alusão a João — É isto... Bêbados fazem muitos desmanchos ... — se consolou., num tambaleio. Dera de rodear caminhos, semi-audaz em qualquer rumo. E avistou um avistado senhor e com ele se abraçou: — Pode me dizer onde é que estou? — Na esquina de 12 de Setembro com 7 de Outubro. — Deixe de datas e detalhes! Quero saber é o nome da cidade...

E atravessou a rua, zupicando, foi indagar de alguém: — Faz favor, onde é que é o outro lado? — Lá ... — apontou o sujeito. — Ora! Lá eu perguntei, e me disseram que era cá...

E retornou, mistilíneo, porém, porém. Tá que caiu debruçado em beira de um tanque, em público jardim, quase com o nariz na água — ali a tua, grande, refletida: — Virgem, em que altura eu já estou! ... E torna que, se-soerguido? mais se ia e mais capengava, adernado: pois a caminhar com um pé no meio-fio e o outro embaixo, na sarjeta. Alguém, o bom transeunte, lhe estendeu mão, acertando-lhe a posição. — Graças a Deus! — deu. — Não é que eu pensei que estava coxo?

E, vai, uma árvore e ele esbarraram, ele pediu muitas desculpas. Sentou-se a um portal, e disse-se, ajuizado: melhor esperar que o cortejo todo acabe de passar...

E, adiante mais, outra esbarrada. Caiu: chão e chumbo. Outro próximo prestimou-se a tentar içá-lo. — Salve primeiro as mulheres e as crianças! — protestou o Chico. — Eu sei nadar...

E conseguiu quadrupedar-se, depois verticou-se, disposto a prosseguir pelo espaço o seu peso corporal. Daí, deu contra um poste. Pediu-lhe: — Pode largar meu braço, Guarda, que eu fico em pé sozinho ... Com susto, recuou, avançou de novo, e idem, ibidem, itidem, chocou-se; e ibibibidem. Foi às lágrimas: — Meu Deus, estou perdido numa floresta impenetrável!

E, chorado, deu-lhe a amável nostalgia. Olhou com ternura o chapéu, restado no chão: — Se não me abaixo, não te levanto. Se me abaixo, não me levanto. Temos de nos separar, aqui...

E, quando foi capaz de mais, e aí que o interpelaram: — Estou esperando o bonde ... — explicou. — Não tem mais bonde, a esta hora. E: — É? Então por que é que os trilhos estão aí no chão?

E deteve mais um passante e perguntou-lhe a hora. Daí: — Não entendo ... — ingrato resmungou. — Recebo respostas diferentes, o dia inteiro.

E não menos deteve-o um polícia: — Você está bebaço borracho! Estou não estou ... — Então, ande reto nesta linha do chão. — Em qual das duas?

E foi de ziguezague, veio de zaguezigue. Viram-no, à entrada de um edifício, todo curvabundo, tentabundo. - Como é que o senhor quer abrir a porta com um charuto? ... Então acho que fumei a chave...

E, hora depois, peru-de-fim-de-ano, pairava ali, chave no ar, na mão, constando-se de tranqüilo terremoto. — Eu? Estou esperando a vez da minha casa passar, para poder abrir ... Meteram-no a dentro.

E, forçando a porta do velho elevador, sem notar que a cabine se achava parada lá por cima, caiu no poço. Nada quebrou. Porém: — Raio de ascensorista! Tenho a certeza que disse: — Segundo andar!

E, desistindo do elevador, embriagatinhava escada acima. Pode entrar no apartamento. A mulher esperava-o de rolo na mão. — Ah, querida! Fazendo uns pasteizinhos para mim? — o Chico se comoveu.

E, caindo em si e vendo mulher nenhuma, lembrou-se que era solteiro, e de que aquilo seriam apenas reminiscências de uma antiqüíssima anedota. Chegou ao quarto. Quis despir-se, diante do espelho do armário: — Quê? ! Um homem aqui, nu pela metade? Sai, ou eu te massacro!

E, avançando contra o armário, e vendo o outro arremeter também ao seu encontro, assestou-lhe uma sapatada, que rebentou com o espelho nos mil pedaços de praxe. — Desculpe, meu velho. Também quem mandou você não tirar os óculos? - O Chico se arrependeu.

E, com isso, lançou; tumbou-se pronto na cama; e desapareceu de si mesmo.

Tutaméia (Terceiras estórias), 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Ed. 1968, pp. 101-104.

sábado, 8 de maio de 2010

EXPLICAÇÃO, Cecília Meireles


O pensamento é triste; o amor, insuficiente;

e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.

Deixo que a terra me sustente:

guardo o resto para mais tarde.


Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.

A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.

A estrela sobe, a estrela desce...

- espero a minha própria vinda.


(Navego pela memória

sem margens.


Alguém conta a minha história

e alguém mata os personagens.)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

CANÇÃO DA FLOR DA PIMENTA,Cecília Meireles



A flor da pimenta é uma pequena estrela,
fina e branca,
a flor da pimenta.

Frutinhas de fogo vêm depois da festa das estrelas.
Frutinhas de fogo.

Uns coraçõezinhos roxos, áureos, rubros, muito ardentes.
Uns coraçõezinhos.

E as pequenas flores tão sem firmamento jazem longe.
As pequenas flores...

Mudaram-se em farpas, sementes de fogo tão pungentes!
Mudaram-se em farpas.

Novas se abrirão, leves, brancas, puras, deste fogo,
muitas estrelinhas...

quinta-feira, 11 de março de 2010

OUTONO DE 2002


OUTONO de 2002

A mulher
lá no alto
do farol
solitário
ilumina
a noite:
acende
apaga
acende
apaga...

Não há beleza
Só há o desespero do mar...
Um vento
muito doce
carrega os segredos da noite...e
beija os navios distantes
e busca as estrelas silentes
e conta aos homens contentes
que há uma mulher
num farol
que espera
que a noite passe
e que as estrelas
que sabem seus segredos
caiam sobre o mundo
e revelem
que ela está só
mas que há
o farol...
(Eloisa Helena, em abril de 2002 )
Perdoem-me a audácia...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

CANTIGA DA BABÁ,de Cecília Meireles


Eu queria pentear o menino
Como os anjinhos de caracóis
Mas ele quer cortar o cabelo
Porque é pescador e precisa de anzóis

Eu queria calçar o menino
Com umas botinhas de cetim
Mas ele diz que agora é sapinho
E mora nas águas do jardim.

Eu queria dar ao menino
Umas asinhas de arame e algodão.
Mas ele diz que não pode ser anjo
Pois todos já sabem que ele é índio e leão.

(Este menino está sempre brincando
Dizendo-me coisas assim
Mas eu bem sei que ele é um anjo escondido
Um anjo que troça de mim.)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bandeira e referência à Cecília

NÃO SEI DANÇAR
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Mistura muito excelente de chás...

Esta foi açafata...

- Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex- prefeito municipal:
Tão Brasil!

De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugêlê banzai!

A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Pra crioula imoral.
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros...
Mas ela não sabe...
Tão Brasil!

Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão de Seridó é o melhor do mundo?... Que me
[importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilós-
[tomos.

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!

Petrópolis, 1925

Pois é...un tomam éter, outros bebidas, eu leio Cecília, e o efeito é de remexer a alma (a Cecília é a de Meireles) , Carnaval chegando, meu coração em tambores...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

BALADA DO CÁRCERE DE READING, Oscar Wilde

Trecho do V (incompleto)

Não sei se as Leis são justas ou se as Leis são falhas...
Isso não cabe a mim.
Nós só sabemos, na prisão, que o muro é forte;
Como sabemos, sim,
Que cada dia é um ano, um ano cujos dias
Parecem não ter fim.

Mas isto eu sei, que toda Lei que a humanidade
Fez para o Ser Humano -
Desde que a Abel matou Caim, e desde o início
De nosso mundo insano -
Transforma o trigo em palha e salva só o farelo
Com um cruel abano.

Também sei isto - e que isto seja em toda mente
Uma noção tranqüila:
Tijolos de vergonha é o que usam na prisão
Quando vão construí-la,
E grades põem para Jesus não ver como o homem
Os seus irmãos mutila.

Com barras o homem borra a graciosa lua
E cega o sol feraz:
E conservar coberto aquele Inferno é certo,
Pois lá dentro se faz
Algo que nem Filho de Deus nem Filho do Homem
Devem olhar jamais!

Como ervas venenosas as ações mais vis
Brotam no ar da prisão;
Ali, somente as coisas que são boas no Homem
Secarão, murcharão...
Guarda a porta pesada a Angústia; e o Carcereiro
É a Desesperação.

Lá a criança assustada fica à míngua até
Que chore noite e dia;
Lá se fustiga o fraco, e se flagela o tolo,
E ao velho se injuria;
Lá muitos endoidecem, todos se embrutecem,
Ninguém se pronuncia.

A nossa pequenina cela é uma latrina
De treva e sujidade.
E o bafo azedo e forte de uma viva Morte
Sufoca toda grade;
Resta a Luxúria só - e tudo mais é pó
Na mó da Humanidade.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Para começar 2010, um poema de Emily Dickinson


Moro na possibilidade,
Casa mais bela que a prosa,
Com muito mais janelas
E bem melhor, pelas portas
De aposentos inacessíveis,
Como são, para o olhar , os cedros,
E tendo por forro perene
Os telhados do céu.
Visitantes, só os melhores;
Por ocupação, só isto:
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
Para agarrar o paraiso.