sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bandeira e referência à Cecília

NÃO SEI DANÇAR
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Mistura muito excelente de chás...

Esta foi açafata...

- Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex- prefeito municipal:
Tão Brasil!

De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugêlê banzai!

A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Pra crioula imoral.
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros...
Mas ela não sabe...
Tão Brasil!

Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão de Seridó é o melhor do mundo?... Que me
[importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilós-
[tomos.

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!

Petrópolis, 1925

Pois é...un tomam éter, outros bebidas, eu leio Cecília, e o efeito é de remexer a alma (a Cecília é a de Meireles) , Carnaval chegando, meu coração em tambores...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

BALADA DO CÁRCERE DE READING, Oscar Wilde

Trecho do V (incompleto)

Não sei se as Leis são justas ou se as Leis são falhas...
Isso não cabe a mim.
Nós só sabemos, na prisão, que o muro é forte;
Como sabemos, sim,
Que cada dia é um ano, um ano cujos dias
Parecem não ter fim.

Mas isto eu sei, que toda Lei que a humanidade
Fez para o Ser Humano -
Desde que a Abel matou Caim, e desde o início
De nosso mundo insano -
Transforma o trigo em palha e salva só o farelo
Com um cruel abano.

Também sei isto - e que isto seja em toda mente
Uma noção tranqüila:
Tijolos de vergonha é o que usam na prisão
Quando vão construí-la,
E grades põem para Jesus não ver como o homem
Os seus irmãos mutila.

Com barras o homem borra a graciosa lua
E cega o sol feraz:
E conservar coberto aquele Inferno é certo,
Pois lá dentro se faz
Algo que nem Filho de Deus nem Filho do Homem
Devem olhar jamais!

Como ervas venenosas as ações mais vis
Brotam no ar da prisão;
Ali, somente as coisas que são boas no Homem
Secarão, murcharão...
Guarda a porta pesada a Angústia; e o Carcereiro
É a Desesperação.

Lá a criança assustada fica à míngua até
Que chore noite e dia;
Lá se fustiga o fraco, e se flagela o tolo,
E ao velho se injuria;
Lá muitos endoidecem, todos se embrutecem,
Ninguém se pronuncia.

A nossa pequenina cela é uma latrina
De treva e sujidade.
E o bafo azedo e forte de uma viva Morte
Sufoca toda grade;
Resta a Luxúria só - e tudo mais é pó
Na mó da Humanidade.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Para começar 2010, um poema de Emily Dickinson


Moro na possibilidade,
Casa mais bela que a prosa,
Com muito mais janelas
E bem melhor, pelas portas
De aposentos inacessíveis,
Como são, para o olhar , os cedros,
E tendo por forro perene
Os telhados do céu.
Visitantes, só os melhores;
Por ocupação, só isto:
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
Para agarrar o paraiso.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (III)


The adoration of the magi( Albrecht Dürer)
Os que por oculta ciência
de tudo souberam.
Seus mágicos presentes,
o Meninos recebe-os.
O colo.
A mãe.
O Universo.
Atrás, porém, os dois
_Um Burro, um Boi _
grimaçante e aturdido,
mugínquo e mudo.
Inevitáveis.
Íntimos das sombras.
Insubstituíveis.
Guimarães Rosa
Feliz Natal , amigos!

O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (II) ,


(Pintura de Van Der Weyden)
Se espiam
entre ruínas e pompas
sempre próximos,
em doce complexidade;
que segredo
de Divindade
representam?
Além da ausência de monstros,
que atestam,
assim de acordo com o silêncio,
o bom Boi,
o bom Asno?
Guimarães Rosa

O BURRO E O BOI NO PRESÉPIO (I) ,







de Guimarães Rosa




Boi que atende e começa a esperar,


de sua sombra,


do espesso que terá


de ser iluminado.




Ao plano e inefável


o Burrinho se curva,


numa inocência de forma.




Revoavam através do nada invulneráveis anjos.




sábado, 12 de dezembro de 2009

RECEITA DE ENGOLIR O MAR, Roseana Murray


o mar ensina

o equilíbrio-desequilíbrio

dos barcos

a rota da calma e do vento

o mar ensina horizontes

voo e mergulho

o mar ensina tempestade

e silêncio